Cardiologia

O Significado Simbólico do Coração e o Lado Humano da Medicina

Esta inusitada introdução tem um claro objetivo: chamar a atenção para o fato de que a medicina moderna não pode ser reduzida a uma profissão técnica. É necessário revalorizar seu lado humano, e nada melhor para isso do que dar destaque ao significado simbólico do coração.

Ver o paciente da maneira mais ampla possível é o grande desafio do médico moderno, não ficando restrito aos gráficos e imagens que os aparelhos constroem para ele. Deste modo, inclusive o significado simbólico do coração não pode ser menosprezado, porque é através dele que os aspectos emocionais e culturais, sempre presentes nas doenças cardiovasculares, podem ser mais bem compreendidos.

Os conhecimentos técnicos atuais em breve estarão superados, enquanto os fenômenos culturais que vêm ocorrendo ao longo da história da humanidade acompanharão o homem enquanto ele existir, influenciando na saúde e na doença.

A medicina do futuro é a que faz a síntese de todos os conhecimentos, conciliando a técnica com o lado humano, aqui representado não pelo coração anatômico, simples bomba propulsora da corrente sanguínea, mas pelo significado simbólico adquirido em nossa civilização.

O significado simbólico do coração não é uma criação de pintores, poetas ou escritores, mas sim um arquétipo — espécie de parte herdada da mente — que habita nosso inconsciente e influi na nossa maneira de ver os acontecimentos, principalmente as doenças que põem em risco nossa vida (Jung, 1978; Clarke, 1992).

Nasceu em épocas remotas e está presente em diferentes culturas, em inúmeros mitos e manifestações (Lewinsohn; Nager, 1993; Helman, 1994).

Em uma caverna de Oviedo, na Espanha, denominada El Pindal, há um mamute retratado com um coração pinta do em seu centro, que data de 15.000 anos antes de Cristo (Fig. I.1) (Lyons, 1997).

O homem que lá habitava, ao reproduzir o coração daquele animal, estava por certo a considerá-lo como o “centro da vida”, local que deveria atingir com sua lança para abatê-lo. Se desejarmos fazer uma bela comparação, podemos colocar ao lado da silhueta do mamute a obra-prima de Matisse — A queda de Ícaro — pintada em 1947.(Fig. I.2).

Em ambas as obras, o coração é o órgão que mereceu figurar no centro da composição pictórica, representado quase da mesma maneira, apenas insinuando sua forma anatômica, deixando entrever sua importância, responsável que é pela circulação do sangue ou da energia vital.

Tal como fez o anônimo artista da era paleolítica, o único órgão representado por Matisse na figura que fundiu um homem e um pássaro foi o coração, a indicar que nele estava o “centro vital” da figura mitológica.

Fonte: http://publicacoes.cardiol.br

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